A
Universidade de São Paulo possui a internacionalização como uma de suas
diretrizes. Afirmar parcerias com entidades de diferentes países é fundamental
para estabelecer relações de integração, além de fortalecer os laços já
existentes. Baseada nessa diretriz ocorre o projeto da disciplina Cidade
Constitucional, desenvolvida na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH),
considerada precursora e de experiência inovadora. Em 2015 ocorreu entre os
dias 28/06 e 04/07 na cidade de Montevidéu – Uruguay. Com uma metodologia ativa,
a disciplina proporcionou a mobilidade de 42 estudantes e 3 professores, que
realizaram visitas técnicas focadas nos programas e projetos do país em
questão.
O Uruguay, localizado no sudeste da América
do Sul, é um país de vanguarda que estabelece inúmeras relações com o Brasil e
se destaca no continente devido aos avanços nos últimos anos no que se refere a
concepção e inclusão dos direitos de cidadania e associação da igualdade à
diversidade, temas que serão tratados a seguir. A viagem, portanto,
possibilitou analisar o contexto histórico, cultural, político, econômico e
social bem como a formulação, implementação das políticas públicas no país.
Estabelecido convênio com a Universidad de la
República foi possível aprofundar e enriquecer a vivência com discussões,
palestras e seminários. Na Faculdade de Ciências Sociais, o Prof. Dr. Gerardo
Caetano Hargain fez a abertura do debate e explicitou o cenário da universidade
pública no país, pois esta é a primeira e única universidade pública, sendo que
todas as faculdades concentram-se em Montevidéu. É um ponto destacado devido a
diferença em relação ao Brasil que possui uma desconcentração de localização
das universidades. Outra questão apontada que merece ser ressaltada é o vínculo
entre Brasil e Uruguay, que ocorre antes mesmo do estabelecimento do Mercosul,
relacionado em primeiro lugar a integração das pessoas em seguida os interesses
nacionais, políticos e de comércio entre os dois países.
Em se tratando de Mercosul, o Sr. Rafael
Reis, Chefe de Gabinete do Alto Representante Geral do Mercosul, conhecido como
Dr. Rosinha, apresentou o contexto e o histórico do acordo dos países da
América latina. É importante destacar que tal acordo surge como resposta à
crise que estava vigente desde a década de 80, embora a resposta seja limitada.
Possui um papel fundamental para estreitar as relações entre os países, mas não
apenas comerciais. É possível constatar no dia-a-dia e até mesmo com a pouca
convivência de 7 dias em Montevidéu que a desigualdade social é nítidamente menor
quando comparada a São Paulo, por exemplo. Mas, além disso, o Mersocul
estabelece programas de relações que objetiva diminuir a alta assimetria do
ponto de vista social e econômico entre os próprios países, tanto de forma
estrutural quanto social.
A abordagem social do acordo é vista na
criação do parlamento e nas discussões a respeito da área de integração produtiva,
agricultura familiar, saúde e educação. Um novo salto qualitativo ocorreu com a
aprovação em 2010 do Estatuto da Cidadania do Mercosul com o objetivo de
encadear as cadeias produtivas internacionais, sensibilizar o setor empresarial
e olhar para o ponto de vista regional. Ou seja, é a aproximação dos setores
entre os países. A medida é de extrema importância para refletirmos sobre a
independência real da importação dos países norte-americanos, europeus ou
china. É uma iniciativa preponderante para fortalecer a América do Sul com base
na ideia de complementação produtiva, sendo mais relevantes para fortalecer a
economia do que tratados de comércio.
O plano de ação do Estatuto direcionado ao
ponto de vista social é claro quando analisamos os objetivos definidos. São
discutidas a livre circulação e principalmente a simplificação dos trâmites
para estrangeiros, fator que inclui a bancarização, igualdade de direitos,
carteira de trabalho para todos e revisão das fronteiras, além da questão
previdenciária. A relevância desses debates se dá pelo nítido descaso e
dificuldade que os estrangeiros possuem para realizar atividades essenciais que
deveriam ser simplificadas, mas é estabelecido inúmeras barreiras, como para
abrir conta em um banco ou alugar uma casa.
A comparação entre Brasil e Uruguay pode
ocorrer , ainda, em relação ao modelo de cidadania. O Prof. Dr. Gerardo apontou
que as diferenças ocorrem devido ao sentimento de pertencimento instituído pois
este viabiliza transformações, sem isso o movimento de mudança é em vão. Outro
fator que contribui é a defesa dos direitos humanos, pois implica em reclamar,
reivindicar e protestar, ações que devem estar a frente da Lei, Estatuto e
obrigações em geral. Uma democracia necessita de cidadão, o que implica em
conflito democrático a partir da concepção de que a convivência social deve
estar em primeiro lugar. É um fator de importante discussão para analisar tanto
a própria cidadania quanto as políticas públicas implementadas. Um exemplo
destacado é a guerra do narcotráfico no México que na prática não há leis para
combatê-lo e, segundo o professor, é devido a falta de sentimento de
pertencimento. A questão que devemos ressaltar a partir do debate é: Como
alcançar ou conquistar o sentimento de pertencimento em uma sociedade?
Figura1:
Comissão em frente a Faculdade de Ciências Sociais.
Guilherme Silva Rossi, membro da Comissão do
Parlamento do Mercosul, em uma visita guiada ao Parlamento, também abordou que
o caráter político e social está a cima do econômico. A agenda interna de cada
país se sobrepõe às agendas no Parlamento, e mantém para lançar temas ou auxiliar
em decisões, mesmo que cada uma seja internalizada no processo de cada país.
Guilherme aponta que o Parlamento está muito mais relacionado a agenda e às
questões sociais e políticias abordadas e a serem pautadas pelos países do que
ao Mercosul. Falta, portanto, construer a identidade do Mercosul.
Figura
2: Comissão de alunos e professores no Parlamento do Mercosul.
Uma das entidades visitadas foi o
Departamento Cultural da Embaixada do Brasil no Uruguay. O Sr. Cesar Alejandro
Garcia Gauci apresentou um breve histórico geral e focou na exposição do papel
do Departamento. É um meio de divulgação da imagem brasileira que auxilia o
contato à eventos e artistas, e está dividido em áreas de esportes, cultura e
educação – principalmente relacionada a bolsas de estudo e intercâmbio. Além
disso, realizam o acompanhamento de acordos bilaterais entre os ministérios. A
visita enriqueceu a programação devido a possibilidade de aproximação com um
espaço brasileiro de articulação em terras uruguaias e conhecimento a respeito
dos processos de bolsas estudantis.
Outro eixo abordado durante a disciplina foi
a educação fiscal no país. Em um seminário o Diretor Geral de Rendas, Joaquim
Serra, apresentou o cenário do sistema tributário. Atualmente os índices do
país indicam que a evasão tributária é mínima, e consideram que as mudanças
resultaram da transferência tributária ser prioridade no governo e da
implementação de uma importante política, a saber a educação tributária, a fim
de promover o entendimento da sociedade a respeito dos objetivos e finalidade
dos impostos. Para isso utilizam ferramentas de educação tanto formal quanto
informal. A ação é extremamente fundamental para possibilitar o cumprimento das
tarefas do governo, das políticas públicas e do próprio desenvolvimento
econômico. De fato é uma experiência que resultou em índices positivos e baseando-se
em uma análise comparativa é evidenciado ainda mais a necessidade do Brasil em
desenvolver políticas de educação fiscal e tributária uma vez que os impostos
afetam a condição social.
A política implementada no Uruguay buscou fomenter
a consciência, solidariedade e a participação social, segundo Margarita Faral
que apresentou detalhadamente o programa. Baseados em uma educação
informatizada, por meio de um programa tecnológico interativo, as crianças de diferentes
idades tiveram acesso a diferentes temas. É importante salientar que a política
objetivou atingir todas as famílias a partir do momento que cada criança recebe
um computador, portanto, estendeu-se um processo de inclusão digital vinculado
a educação tributária - fator positivo que chama atenção pela integração de
políticas.
Uma discussão e abordagem dos eixos referentes
a saúde sexual e reprodutiva, casamento civil igualitário e a regulamentação,
cultivo, distribuição e consumo regulado da Cannabis ocorreu na Casa
Pró-Derechos, uma Organização Não Governamental composta por três movimentos
que lutaram pelas conquistas de cada eixo citado. O principal objetivo dos
coletivos é fornecer apoio e informação antes mesmo da normatização, buscando
difundir os direitos com outras organizações para garantir as conquistas. O
debate além de sanar dúvidas a respeito das ações diárias dos coletivos antes e
depois da normatização foi essencial para ressaltar a importância de construer uma agenda de políticas públicas
brasileiras por meio de integrações e câmbio de pessoas.
Figura
3: Alunos e professores na Casa de Pró-Derechos.
A última visita foi ao Palácio da Suprema
Corte de Justiça ocorreu uma conversa com o ex-presidente Pepe Mujica, ator
responsável pelos avanços do país nos eixos tratados, e considerado
revolucionário por defender que um presidene deve passar pelo processo de
convencimento e discussão das políticas e não agir simplesmente como deseja.
Estabeleceu um vínculo com a sociedade e com as demandas e promoveu a inclusão
dos direitos de cidadania de modo que sejam reformulados e reconstruídos
constantemente. Mujica recepcionou a comissão de alunos e professores, chamou
atenção para o papel de um agente público e discorreu sobre política,
sociedade, história e amor.
Figura
4: Pepe Mujica e a Comissão de alunos e professores.
Juliana Brito dos Santos





